Tubarão
E mais: as leituras do Clube em janeiro, fevereiro, março e abril
Em 2024, em conversas com o escritor José Francisco Botelho, contei que eu lia Tubarão (Peter Benchley) quando a enchente atingiu Canoas. Chico lamentou eu ter lembrado do detalhe só depois que seu texto – uma matéria bem completa, cheia de entrevistas com pessoas atingidas – fora enviado para a publicação na Piauí. Eu acho que demorei a lembrar porque o livro se desfez em lodo antes que eu tivesse avançado além do primeiro capítulo.
Cerca de um mês atrás, eu andava pelo centro histórico de Porto Alegre e as boas andanças me levaram a um sebo. Lá, em prateleira à altura dos olhos, exibia-se meu amigo cheio de dentes. A capa sóbria, menos sedutora que a da DarkSide (minha favorita), traz a boca do peixe aberta mostrando as serrinhas pontiagudas que destroçam suas presas. Comprei por vinte reais a edição Grandes Sucessos da editora Abril (1984) – tradução de A. B. Pinheiro de Lemos. Iniciei a releitura dentro do trem que me levava de volta para casa.
O primeiro capítulo de Tubarão é similar à cena que Spielberg filmou: misteriosa e sedutora, com uma tensão leve que cresce até descambar para o horror. Além de misteriosa – o mergulho de uma garota nua à noite – e sedutora – após o sexo na areia da praia – a cena inicial do livro possui um componente a mais. É eletrizante porque o narrador se apropria do ponto de vista do tubarão.
O imenso peixe deslocava-se silenciosamente pelo mar noturno, impulsionado por movimentos curtos do rabo em forma de crescente. A boca estava aberta apenas o suficiente para permitir que um jato de água lhe passasse pelas guelras. Quase não havia outro movimento: apenas uma correção ocasional do curso, aparentemente a esmo, pelo ligeiro levantar ou abaixar da barbatana peitoral, assim como um pássaro muda de direção ao abaixar uma asa e levantar a outra. Os olhos nada viam na escuridão e os outros sentidos não transmitiam nada de extraordinário ao cérebro pequeno e primitivo. O peixe poderia estar adormecido, se não fosse pelo movimento determinado por incontáveis milhões de anos de instintiva continuidade. Carecendo da bexiga de flutuação comum a outros peixes a das abas móveis para fazer a água rica em oxigênio passar pelas suas guelras, ele só podia sobreviver deslocando-se. Se parasse, iria para o fundo do mar e morreria de anoxia.
Uma leitora um pouquinho mais experiente compreende a intenção do narrador. E é essa intenção que vai guiar o fascínio de determinados personagens, assim como o embate entre outros.
Comentei com a autora Verena Cavalcante minhas impressões de leitura, ela respondeu que tinha lido aos 14 anos e que adorava os trechos que narram as ações do tubarão. As outras partes a entediavam horrivelmente. Tendo a concordar com Verena. Lamentamos que o narrador tenha se ocupado muito pouco do melhor personagem (o monstro). Mas acho que do alto de meus 51 anos, consigo compreender melhor as associações que o autor buscou ao traçar paralelos que nos levam a interpretar as crises associadas à história.
O autor Daniel Gruber – numa oficina que ministrávamos em conjunto – utilizou o exemplo de Tubarão para explicar a função do monstro nas narrativas. Desde então, eu o imito, Tubarão é um excelente exemplo. Derivado do latim “mostrare”, a palavra significa alertar, mostrar, avisar. O monstro da história cumpre a função de demonstrar uma crise de origem humana.
Sorte de quem lê o livro, que traz nuances bem mais sutis. O pequeno balneário sobrevive do turismo dos três meses de veraneio. Compreendemos o desespero dos comerciantes locais em esconder que há um gigante esfomeado rondando as praias. Caso a notícia se espalhe, os veranistas escolherão outro balneário, restaurantes fecharão as portas, lojas demitirão funcionários, seguindo todo o combo da ruína financeira. A associação dos moradores faz pressão, o prefeito e o jornal local também. Brody (a autoridade policial) reluta e, por fim, cede. Desiste de ordenar o fechamento das praias.
O filme, por outro lado, é bem mais dicotômico. O poder local tem negócios escusos e quer lucrar. Comerciantes defendem o progresso e suas benesses (conhecemos os argumentos). Brody e Hooper (o biólogo) são empurrados para o lado fraco da corda.
Também conhecemos o desfecho de tantas outras situações com enredos parecidos.
Ocultando a tensão sexual que há no livro, Spielberg modificou a história, tornando-a mais conservadora. O conflito do personagem se torna evidente no segundo capítulo, a crise de meia idade de Brody respinga no casamento morno com Ellen. É importante saber que a esposa vem de outra classe social e sente saudades da condição que abdicou. Assim como é importante saber que Ellen se surpreende ao reconhecer Hooper, o irmão mais novo de seu namorado da adolescência. O curioso é que antes de sermos apresentados à tensão que surgirá entre Ellen e Hooper, nos deparamos com outro encontro:
Ele era jovem, com vinte e poucos anos, de boa aparência, bronzeado, os cabelos esbranquiçados pelo sol. Era tão alto quanto Brody, embora mais magro. Brody calculou que ele deveria pesar uns oitenta quilos, contra os seus quase cem quilos. Um reflexo mental classificou Hooper como uma possível ameaça. Mas, com um sentimento que reconheceu como orgulho juvenil, Brody chegou à conclusão de que, se tivessem que se enfrentar, ele poderia vencer Hooper. A experiência é que lhe daria vantagem.
O complexo de inferioridade de Brody o atormenta. Ele não pode oferecer o conforto com que Ellen cresceu acostumada. Os veranistas novaiorquinos são descritos como muito brancos. Brody é habitante local, com a pele mais escura, uma espécie de Heathcliff menos vingativo. O livro, em momentos pontuais, ensaia algumas críticas sociais e de comportamentos racistas, mas não chega a se aprofundar e o tema se perde.
O incômodo de Brody toma uma proporção insuportável durante um jantar que Ellen oferece para Hooper. Seu descontrole, claro, vai jogá-la nos braços do “tubarão”. Todo o ritual de sedução seguido por sexo entre os dois vem com tons de brutalidade. Mesmo que a iniciativa do encontro seja de Ellen, a cena lembra um cerco seguido por um ataque.
A verdadeira ameaça presente na história, para quem ainda não sacou, é a mesma de inúmeros livros e filmes de horror estadunidense: a perda do patrimônio. A esposa, entende-se, está incluída na categoria patrimônio.
Gosto de refletir sobre o horror, como funciona, e por que a sedução e o mistério, especialmente em obras das décadas de 1970/80/90, aproximam o prazer do horror transformando um na consequência do outro.
Sobre Chrissie, a primeira vítima do tubarão, há julgamentos que determinam os rumos da investigação policial. Já que estava disponível para fazer sexo na praia, à noite, não estaria envolvida com mais pessoas? Não agia como uma garota liberal demais? O namorado não sabia responder às perguntas, conhecera-a pouco tempo atrás. A comunidade local tampouco conhecia Chrissie, o que transformava a sua morte num evento menos grave. Os investigadores se convencem de que pouca gente se preocupa com a garota e encerram o caso.
A outra mulher em questão, Ellen, também sofre o castigo após cometer seu erro. A tarde de sexo com Hooper a deixa melancólica, joga-a mais fundo na dependência de medicação para dormir. Diferente de Chrissie, Ellen tem uma reputação a conservar. Como Mina Harker, é mulher correta, formou família. A atuação como voluntária no hospital depõe a favor da honestidade de uma mulher em crise. Sacrificar a mãe de três garotos resultaria em sofrimento demais para a família. (Que se sacrifique o monstro).
Voltemos a Hooper e sua busca. Os alertas desesperados do filme (que lembram o desprezo da população frente aos apelos dos cientistas na época da Covid-19) não são enfáticos no livro. Hooper tem mais dúvidas do que certezas, não consegue explicar um tubarão branco se alimentando em águas menos frias. E são as dúvidas que proporcionam a pouca convicção na hora de ponderar se os banhistas correm risco real. Num barco alugado, o biólogo patrulha a área costeira à caça do ser que o fascina. Hooper tem a faísca, a curiosidade sem freios que o fez cientista. Precisa ver a criatura de perto, precisa tocá-la. Na parte três, mergulhando dentro de uma gaiola, ele consegue o tão desejado contato:
A cabeça estava a poucos metros da jaula, quando o peixe se virou e começou a desfilar diante dos olhos de Hooper, indiferente e tranquilo, como numa exibição orgulhosa de sua massa e poder incalculáveis. O focinho passou primeiro, depois as mandíbulas, entreabertas e sorridentes, armadas de fileiras de dentes de serra triangulares. Depois o olho preto e insondável, aparentemente cravado nele, Hooper. As guelras se agitavam, eram como ferimentos sem sangue na pele de aço.
O parágrafo acima pode, sem dúvida, ser apresentado como exemplo do sublime. Indo mais longe, eu (que adoro ampliar limites classificatórios) encaixaria fácil um ecogótico aqui.
Bem devagar, como experiência, Hooper estendeu a mão para fora da jaula e tocou o flanco do tubarão. Era frio e duro, não pegajoso, mas muito suave. Ele deixou seus dedos acariciarem aquela carne, passando pelas barbatanas peitorais, a barbatana pélvica, os imensos órgãos genitais até finalmente (o peixe parecia não ter fim) serem afastados pelo movimento do rabo.
Sim, ele é macho! Dr. Freud, corre aqui!
Eu juro que ia deixar passar o comentário quinta série que se forma em minha mente cada vez que leio essa passagem. Não posso porque algumas páginas adiante há nova menção aos imensos órgãos genitais do peixe.
Por fim, quero me esbaldar em controvérsias e trazer Quint, meu personagem favorito. Pescador experiente, conhecedor dos mares, do comportamento dos peixes, Quint se apresenta como o único capaz de matar o monstro. Ao contrário do estudado Hooper, Quint é bronco, falastrão e cheio de rompantes. Despreza o tubarão, refere-se a ele como peixe estúpido e toma, assim, o posto de antagonista do biólogo. Para provar seu ponto de vista, Quint pesca um filhote, abre seus intestinos e o devolve para a água, maravilhando-se com a cena do peixe devorando a si próprio. A atitude nos horroriza, faz com que a gente torça para que o monstro o devore no final da história. Afastando o foco, compreendemos a intenção: a balança deve pender para Hooper. Alguns embates, porém, tornam Quint o homem sensato do barco. É um solitário pilotando um pesqueiro artesanal. Advoga contra a pesca predatória (em 1974) muito antes do surgimento do Greenpeace e demais órgãos defensores da natureza. O monólogo inesquecível de Quint não está presente no livro. Spielberg elevou o personagem quando o tornou um sobrevivente do naufrágio do Indianápolis em 30 de julho de 1945.
Para quem vai ignorar o link, Indianápolis é o navio que levou os componentes da bomba de Hiroshima. Naufragou após ser atingido por dois torpedos japoneses. Mil e cem homens ficaram à deriva por quatro dias (a missão era tão secreta que as forças armadas estadunidenses demoraram a descobrir o naufrágio). Apenas trezentos sobreviveram à desidratação e aos ataques dos tubarões.
Pelo menos entregamos a bomba
é a frase de Quint que finaliza a conversa.
O fascínio, a busca pelo primitivo, o natural, o sublime que nos tira o fôlego a ponto de nos aterrorizar está presente em outras leituras que Tubarão me fez ir atrás/revisitar: Moby Dick, Mandíbula, Escute as feras, Xamãs elétricos na festa do sol e Falso lago.
Entendo as conexões, todas as mídias alertam para um Super El Niño com promessa de elevar em mais de três graus a temperatura das águas do Pacífico. Não precisa ser especialista para compreender que as consequências virão. Inscrevi-me no curso Mulheres e Feras, de meu orientador de doutorado, o poeta Guto Leite (também atingido pela enchente de 24). As análises das obras apontam para nossa perplexidade frente às fúrias da natureza, e a recusa de nos submetermos a ela. É uma luta inútil, mesmo assim insistimos, acreditamos numa falsa superioridade dos seres racionais. Encarnamos a empáfia de Hooper, de Brody, ou mesmo de Quint, homens tolos que acreditam que controlam alguma coisa.
As leituras do Clube
Em janeiro, o Clube leu Carmilla, de Sheridan Le Fanu. O encontro contou com a presença sempre especial de Cid Valle.
Em fevereiro, o Clube leu Guardiãs da trama, uma fantasia da Coleção Fantástika (publicação independente), escrita pela autora Karine Canal.
Em março foi a vez de sentirmos o tremor do vulcão com Xamãs elétricos na festa do sol, de nossa musa Mónica Ojeda.
E em abril, discutimos O retrato de Dorian Gray, livro que rendeu inúmeros comentários. Oscar Wilde presente.
Agora, em maio, é a vez de Como nascem os fantasmas, de Verena Cavalcante. O Clube tá on, ativo desde junho de 2021, e hoje conta com 166 membros. Aqui o link de ingresso para o grupo de WhatsApp.
Mais novidades
Em junho, o Clube Sangue Latino lerá meu romance Lauren. Estou empolgadíssima para o debate. Link de ingresso aqui.
E parece que sai mesmo em 2026! Meu próximo romance já tem título: Porto Alba parte de um mistério e cresce ao enredar Ana, a personagem central, numa rede de descobertas (internas e externas). Uma coisa eu prometo, ele está eletrizante. Sai pela Ed. Autêntica Contemporânea.
E vamos de mais novidade: o escritor Cristhiano Aguiar organiza uma coletânea de horror. Estou nessa que promete ser uma provinha dos caminhos por onde o horror nacional anda se aventurando. Em breve, pela Editora Gutemberg.
Também saio em duas outras coletâneas: Rural Noir, organizado por R. Tavares e a 4ª Coletânea da PodLetras. Mais detalhes quando os textos estiverem finalizados.
Passando a cestinha
Por conta das necessidades, ofereço uma oficina que aborda O inquietante (de Freud) em quatro obras. Aqui vai o card. Me chamem no email, apoiem a newsletter (se conseguirem). Prometo trazer textos que me motivam a escrever, concordar, criticar.
Beijos e vamos simbora nesta nave prestes a enfrentar uma turbulência nível hard.







Rural Noir, Porto Alba... Já vamos fechando a lista para 2027. Tá faltando mês para tanto livro bom.